terça-feira, 17 de maio de 2016

A tal nova era do despertar


Talvez você não fique confortável com o que vai ler. Especialmente se está entre tantos que acreditam que a humanidade está em um processo de despertar, como se uma nova era de paz e amor estivesse despontando no horizonte, criando um novo mundo onde a paz e o amor predominarão.  Pessoalmente não penso exatamente assim. Vejo que desde sempre a humanidade cumpre seus ciclos, ora mais voltados para a espiritualidade, ora para o materialismo. Desde as primeiras manifestações de cultura humana representando nossa vocação para seres que buscam transcendência, até épocas sombrias como impérios sanguinários.  

Repare que, assim como a natureza se equilibra, a humanidade faz esses movimentos frequentemente, seja entre a inquisição na idade media e o iluminismo no século dezoito.  
Mais recentemente, já no século vinte, houve forte influência da ciência, da psicologia, de descobertas fantásticas que sinalizavam que o acesso à todas as respostas era apenas questão de tempo. Foi um período de enfraquecimento religioso que, mais adiante, já depois da metade do século, retorna de outro jeito, acompanhando uma serie de transformações políticas, sociais, sexuais e religiosas, culminando já no fim da década de oitenta (com a queda do muro de Berlim) com o que hoje se compreende por período pós-moderno.  
Vejo com frequência troca de símbolos. Diminuiu a quantidade de gente que aceita a infalibilidade papal, aumentaram os que projetam sua fé em gurus. A reza do terço ficou para as senhoras de idade, o mantra para os mais jovens e místicos. A força de influência do cristianismo diminui no mundo enquanto crescem as filosofias orientais e o número de muçulmanos.  Não vejo com tanta frequência imagens de santos em casa, mas vejo foto de mestres, deuses hindus, budas e afins. Usamos outra linguagem para dizer as mesmas coisas.  

No entanto, se olharmos para os corações, continuaremos vendo os mesmos conflitos, as mesmas dores, medos enraizados que não mudam porque trocamos os símbolos, que continuarão ali, mesmo que troquemos a missa pela meditação, a reza pelo mantra.  Sinceramente não percebo mais amor, mais consciência, mais entendimento espalhados pelas cidades. 
Vejo mais distração, mais vacuidade, mais resignação em permanecer o que sempre fomos, apenas trocando os símbolos.  Apesar do meu aparente ceticismo, creio na mudança de mundos, especialmente quando uma pessoa desperta em consciência. Esse deixa de se impressionar com o lado de fora e volta seus olhos para onde de fato as coisas acontecem, dentro.  
Exterioridades refletem movimentos cíclicos, culturais, históricos, presentes desde sempre, mas não refletem necessariamente mudanças de consciência.  

Deixemos de nos preocupar com isso e passemos a olhar para o universo que nos habita. Pessoalmente não creio que nosso planeta será um paraíso, muito pelo contrário. No entanto, acredito em universos que mudam, consciências que acendem sempre que enxergam, sempre que se expandem e deixam a “caixinha”, respondendo as demandas do cotidiano em amor.  Pensar que o mundo está mudando pode ser estimulante, mas como responder ao fato de que o mundo que deve mudar é você? Cuidemos do mundo que somos, cresçamos em consciência, menos impressionáveis com símbolos, mais atentos aos conteúdos.  

Tudo muda quando muda na gente. Gente: o único universo possível, a única esperança para genuínas revoluções, revoluções individuais, por isso incomodas, por isso pouco valorizadas.

- Flávio Siqueira 


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